Por falar em mortos, jornalistas científicos morreram.


Um dia após o dia dos mortos, mas ainda em tempo de celebrar 500 anos da morte de Da Vinci, fui ao cemitério de meus próprios artigos e ressuscitei "A Morte das Revistas Científicas", artigo reproduzido pela ECA da empolada USP, anotando que extraiu do Comunique-se, site de "jornalistas" que por sua vez copiou da falecida suicida Clínica Literária. Ei-lo:

A morte das revistas científicas como prenúncio da sociedade dos jornalistas mortos

Por Luís Peazê* (2004)

A morte noticiada

Em plena reeleição do governo FHC o Dr. Renato Sabbatini, Diretor do EDUMED - Instituto para Educação em Medicina e Saúde e articulista científico para o Correio Popular (Campinas, SP) e várias revistas médicas, previu "a morte das revistas científicas no Brasil", em artigo com este título mesmo. Mas ele acreditava que a sua previsão poderia não acontecer pelo fato de a universidade nunca ter estado tão bem representada no governo quanto naquele, a começar pelo presidente que era professor universitário e cientista.

Mas aconteceu, segundo ele mesmo constata perguntado pela Clínica Literária sobre a situação das publicações científicas. Embora estivesse se referindo às revistas impressas que, segundo ele, perderam lugar para as eletrônicas.

Ulisses Capozolli, editor da Scientific American (edição brasileira), informa que a sua revista vai bem e pontua duas categorias de atores no meio das publicações científicas criadoras de uma nebulosidade indesejável: os positivistas superficiais, que levantam uma bandeira ao primeiro alarme de uma descoberta ou afirmação contundente; e os revisteiros tradicionais que acham que são capazes de fazer qualquer tipo de revista, dando a entender que uma revista científica só poder ser feita por quem é do ramo (da ciência).

Um passeio pela Internet e bancas de revistas deixa claro um fato: além da Scientific American ocupam as prateleiras ao lado das revistas pornográficas e de generalidades apenas as não tão científicas Super Interessante e Galileu, com suas colunas "super legal" e "dicas para salvar o planeta", respectivamente, misturadas a duas ou três matérias genuinamente científicas, mas nem por isso isentas da espetaculosidade editorial.

Então, se as revistas científicas brasileiras (impressas) estão mortas, os jornalistas que escrevem sobre ciência seriam os próximos condenados à morte? Afinal, como está a difusão da produção científica? E isto é o que deve interessar antes de tudo, não exatamente a coisa "veículo" ou o agente social (ativo) desta coisa.

No entanto este agente, o jornalista, tem sido como nunca objeto de notícia conforme se lê no site Comunique-se, dirigido exclusivamente a jornalistas, e se ouve vendo, ou vê ouvindo, no Observatório da Imprensa que repete que nunca mais você vai ler jornal como antigamente...

Por outro ângulo, há um anseio no meio científico pela popularização da ciência, não só no Brasil, como revelou a Dra. Gerlinde Teixeira do Laboratório de Imunologia da UFF e membro da Sociedade de Museus e Centros de Ciência, como no âmbito internacional.

O mesmo anseio transpirou tanto na 2ª Conferência Mundial de Jornalistas Científicos ocorrida em Budapeste em 1999 (a 1ª foi em Tokyo em 1992) e a 3ª, ocorrida em São José dos Campos no ano passado, onde ficou decidido pela comunidade internacional de jornalistas científicos que uma entidade que abrigasse mundialmente este segmento de jornalismo deveria ser fundada. E foi, a WFSJ - World Federation of Science Journalists (Federação Mundial de Jornalistas Científicos), apenas nenhum brasileiro faz parte do seu conselho diretor, e isto deve significar alguma coisa.

A causa desse anseio é, contudo, em grande parte pela exiguidade de espaços na mídia convencional dedicados a matérias científicas. Sabe-se que há uma década vem ocorrendo um enxugamento (que seca!) de recursos humanos nas redações dos jornais e revistas de grandes tiragens e, como em todo enxugamento, as primeiras gotas a serem sacrificadas são aquelas que não trazem nenhum benefício imediato em larga escala - à parte se o raciocínio empresarial a longo prazo está certo ou errado, o fato é que as palavras "notícia científica" nas reuniões de pauta parecem ser proibidas.

Não fossem, as editorias de ciência teriam um time fixo de jornalistas, de preferência especializados, e não precisariam ficar abrigadas na aba de seções genéricas, como a internacional, por exemplo, ou dividindo espaço com seções como família & saúde. Mas por que não diluir as notícias sobre ciência por todo o veículo, até nos classificados? O importante é publicar a ciência.

É certo que há veículos que diluem a demanda de sugestões (boas) de pauta sobre ciência pelas suas seções de acordo com o assunto, o problema é que o enfoque invariavelmente acaba sendo pela face econômica ou política.

No esporte, só para citar uma fonte estimuladora permanente de produção científica, não se lê nada sobre fisiologia, e novos desenvolvimentos mecânicos e industriais. De qualquer forma a coisa parece ser explicada mesmo é pelo fator mercado em detrimento do conteúdo editorial. No caso da Scientific American lhe sobra pouca alternativa, posto que seu conteúdo vem 70% pronto da versão americana (traduzido), restando-lhe apenas 30% para a produção nacional. Sua circulação se iguala a um jornal de esporte, o Lance, por exemplo e isso é bom.

As duas outras revistas não ficam nem muito abaixo nem muito acima, o que importa considerar é que as três são amparadas por três motores potentes do mundo das publicações impressas. A Ediouro (dos Coquetéis de palavras cruzadas), a Abril das Playboys e tantas outras conhecidas e a Globo da Globo. Assim, como as três transportam em suas páginas uma experiência de revisteiros de massa, é compreensível que, para capturar a atenção dos leitores seja necessário um pouco de pirotecnia, sensação e é claro "picture", porque, compreender a expansão do universo e a importância dos mosquitos na vida do ser humano sem figurinhas é cansativo.

Numa esfera mais afastada, diga-se enclausurada, as revistas científicas puras, dos bancos acadêmicos, reduzem-se ao alcance de um mailing list onde todos são conhecidos do editor que, por sua vez, tem uma única fonte de conteúdo, aquela universidade a que pertence, e é de fato crível que estejam escorrendo para o ralo da Internet por uma questão pura e simples de administração de custo. E é claro, quem escreve nestas revistas não são os jornalistas, são os pesquisadores e pós-graduados.

O corredor da morte

O 4º Encontro Mundial de Centros de Ciência a ser realizado no Rio de Janeiro em abril de 2005 sediado no Museu da Vida, leia-se Fiocruz, terá como tema "Centros de Ciência: Rompendo Barreiras, Engajando os Cidadãos" (o título original é em inglês, a tradução é livre) e o resumo de seus objetivos ambiciosos é: perseguir caminhos para possibilitar aos cidadãos exercitarem seus direitos e se beneficiarem dos avanços das ciências.

Para o jornalismo, é de fato um mar de informação a explorar, a divulgar, com nomes de atores sociais para todos os gostos, de artistas a esportistas, de políticos a empresários. Por que então este vazio? Sonolência, ou letargia, morte antevista ou medo de morrer dos jornalistas científicos, que procuram nadar aonde da pé, ou pescar aonde dá peixe fácil de vender, e não se aprofundam nas matérias? Pois, para complicar ainda mais, o jornalismo nunca foi tão visado como objeto de crítica - poderia ser de estudo, mas tem sido de crítica mesmo.

A ponto de as opiniões se dividirem, isso por si só já é um complicador suficiente, entre os colegas do ramo sobre a linguagem que, segundo os primeiros anos de faculdade de comunicação com especialização em jornalismo, recomenda seja (completamente diferente deste artigo) limpa, direta, sem adjetivos e, quando a abordagem for interpretativa que esteja bem separada da informativa, assim como o jornalismo de opinião esteja bem diferenciado do investigativo. Neste ambiente, como não aceitar que o jornalismo científico fique arredado num canto da redação?

Mencionada a linguagem, não por acaso, recebe-se ocasionalmente notícias dos laboratórios americanos, sempre dos americanos, sobre os desenvolvimentos de softwares lingüísticos, ou redatores inteligentes capazes de ler várias fontes de textos e criar um texto novo. Mas, em português, esses programas de criação de texto jornalístico estão longe de criar associações com palavras como "sonolência" com o significado da passividade ou mesmice, que sozinhas não encerram o sentido de metáfora daquela.

Continuando o mergulho para fora do assunto central aqui, jornalismo científico, mas caindo não muito longe, recentemente foi fundada a Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo que nasceu, segundo a Professora Dra. Zélia Leal, orientadora de pós graduação da UnB, parte pela pressão inversa de uma classe de acadêmicos oriundos de áreas humanas como a sociologia que não considera o jornalismo uma disciplina para estudo científico, e preferem as aventuras na semiótica e outras vias.

Grande parte, suspeita a Dra. Zélia, pelo fato de que muitos desses doutores orientadores de educandos de jornalismo, nos bancos universitários, passam direto da graduação ao doutorado sem a prática do dia-a-dia numa redação, e este é outro problema, grave.

Um vetor importante na mudança do cenário das publicações de notícias científicas tem sido a tendência mundial de preocupação com o meio ambiente, que exige dos seus atores buscarem conhecimento - embasamento nos vários ramos da química, da biologia, da geografia, e de várias áreas do estudo científico - tendo inclusive que superar a iminente defasagem que afeta a massa de interessados no assunto, posto que sobre o meio ambiente se descobre novidades a cada ano - o caso do efeito estufa, dos recursos hídricos e dos transgênicos.

Com efeito, se aferirmos cuidadosamente a quantidade de linhas impressas (ou digitalizadas) sobre ciência lidas ou transmitidas por jornalistas pela TV (o ainda maior veículo de massa disponível) veremos que é o maior já visto em todos os tempos, tendo assim atingido o grande público como nunca. Desta forma, o anseio de popularização da ciência sentido no meio acadêmico e centros de ciência é impertinente.

Uma prova: Ulisses Capozzoli, editor da Scientific American, responde que não recebe materiais de centros de pesquisa de universidades, e quando recebe algo a fonte é um indivíduo interessado em divulgar o seu próprio trabalho que, neste caso, raramente chega com qualidade editorial, de texto propriamente dito.

Contra prova: vários professores orientadores de pós graduação foram consultados, de universidades públicas e particulares de várias regiões do país, e foram unânimes em afirmar que não são visitados por jornalistas para consulta ou prospecção de material para reportagem.

Tese: é falso pensar que somente a tendência de preocupação com o meio ambiente traz à tona a ciência de sob os escombros de notícias espetaculosas e fofocas que vendem mais do que água no deserto.

Desde o início da era industrial a busca por novas fontes de energia e materiais alternativos são fontes profundas para divulgação da ciência, apenas, talvez, as cifras de faturamento e investimento tenham sido foco de maior importância do que o insumo da notícia em si. A área de engenharia genética parece ser o melhor exemplo de como um caso de ciência perde rapidamente a vez, como notícia, para o caso dos reflexos econômicos, numa mesma história, concorrendo ainda com a religião que é um assunto insondável pelo racional jornalístico, embora uma declaração do Papa tenha mais chance de virar manchete do que a prevenção de alguns tipos de câncer pela injeção de água do mar na veia.

O Dr. Renato Sabbatini, diretor do EDUMED - Instituto para Educação em Medicina e Saúde e articulista científico para o Correio Popular (Campinas, SP) e várias revistas médicas, afirma que as publicações científicas online são muito boas no Brasil, estão em franca produção no meio universitário embora já enfrentem o mesmo problema das finadas impressas: a falta de recursos financeiros para se expandirem, e em muitos casos para sobreviver.

Como não há incentivo do novo governo (menos acadêmico do que o anterior), dependem do patrocínio da iniciativa privada que não se interessa por este segmento porque ele tem uma baixa audiência, isto é, por mais que a tiragem seja infinita (via wide world web) não alcança grande massa de público. É nesta hora que os jornalistas científicos começam o seu caminho para o corredor da morte. E há outra tendência apontada pelo Dr. Sabbatini, descontado aí um certo ressaibo de campus universitário: a necessidade de autores de artigos científicos terem que pagar para publicar seus textos.

Mas é claro, se referiu aos cientistas que precisam publicar seus estudos para serem percebidos no mundo científico. Centrifugando todas as afirmações acima, certas ou erradas pode-se tomar como resultado o número total de associados da ABJC - Associação Brasileira de Jornalistas Científicos, menos de um mil, e é verdadeira a afirmação de que, neste caso, existem no Brasil menos de 1 (um) jornalista científico (vivo) por veículo, considerando as publicações tradicionais da grande mídia somadas às universitárias e as de centenas de associações científicas que vendem o seu peixe através de suas revistas.

A conclusão séria que este modesto articulista, dedicado aos assuntos científicos do meio ambiente marinho e costeiro, pode chegar é a de quê, assim como não é mais concebível nenhuma atividade humana, produtiva ou de lazer e entretenimento, e especialmente educativa que não tenha forte apelo ecológico, é pertinente pensar que a cada jornalista, dos estagiários aos jurássicos, cabe procurar a abordagem mais técnico-científica da prova, da evidência, da apuração, quanto mais profunda possível em seus textos, e resistir até o último minuto à vontade imediatista do patrão. Ilusão, este último parágrafo é "fake", ou ingênuo, como queira...

#ciencia #jornalismo

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