Um andar pelas esquinas lisboetas, de Portugal, a gente, as pessoas, as palavras, no tempo e no espaço, hoje em contexto com o que gravita de intenso e sutil, de súbito e fractalizado no mais amplo sentido. Crônicas.

É ambicioso, antes de ser um andar pretensioso com o olhar romântico, contar o que se passa “nas esquinas de Lisboa”. Elas são imensas, no tempo. Mas em forma de crônica é possível. E seja louvável, em se tratando de quem a vê do cais de Alcântara; ao sol nascente por sobre a margem sul do Tejo, ao pôr do sol imaginando o que se passa nos Açores, vez ou outra olhando atrás o reflexo roseado do mesmo sol refletido na Lisboeta meio preservada, meio gentrificada, hoje em dia.

É abril no prefácio do século XXI e o que vejo chegou de navio: “street food”, depois eu conto o resto, pois teremos “Nas Esquinas de...” frequentemente aqui na Conversa no Pier.

 

Conversei com Luis Rato, o português que trabalhava em desportos e, não mais que de repente, num dia qualquer de 2010, resolveu avisar para Portugal que a comida de rua, requalificada, chegou para ficar. Em roulotes charmosos, em triciclos repaginados com sabor italiano, em carrinhas de toda a sorte cada uma mais jeitosinha do que a outra.

 

O empreendedor, segundo suas próprias palavras, vislumbrou o que alguns diziam era insanidade, a emancipação de um hábito milenar, o comer a céu aberto, intuiu que a gastronomia de qualidade poderia ser fabricada num sandes, num bolinho de carne, num pastel com sotaque marroquino, comida boa da China, e por aí afora. Sabendo que em países como os Estados Unidos e Reino Unido, a tendência já era mais do que apenas um modismo, resolveu ele mesmo começar a construir esses meios de oportunizar a expansão da restauração para as esquinas de Lisboa, de Porto, Setubal, Coimbra, o Algarve, o Alentejo...

Passada quase uma década, Luis Rato contabiliza aproximadamente 200 empreendedores de “street food” espalhados em Portugal. Já se pode tratar sem medo de errar que é um segmento de mercado, tão vigoroso que deu origem a uma Associação de classe, a ASFP liderada pelo próprio Luiz Rato e que aglutina os proprietários de “street food” de Portugal em torno de interesses e demandas do meio; desde regulamentações a boas práticas.

Embora isso tudo não seja novidade, é sempre bom lembrar, porque estamos a falar de um negócio anual da ordem de 20 milhões de euros, e que não pára de crescer, segundo o nosso primeiro convidado Nas Esquinas de Lisboa. E já são quase 200 associados da ASFP, neste caso a aritmética é simples: a grosso modo, cada um a faturar um bom dinheiro, a empregar direta e indiretamente um bocado de gente, a movimentar um tanto generoso de mercadorias e outros negócios.

E o “street food” não por acaso vem para a rua com o carimbo em língua inglesa, que toda a gente aprende para pedir informação, como um turista da vida. Também não por acaso semelhante a outra explosão contemporânea, das “start ups”, é um negócio que demanda criatividade. Não há um só que seja igual ao outro. E há os que fazem tanto sucesso que dão origem a filiais com o timbre da restauração tradicional, isto é, saem dos amovíveis para o lugar comum dos imóveis. Outros florescem na via contrária, nascem de conceitos da restauração antiga e caem literalmente na boca do povo, na calçada, nas ruas. O caso emblemático de Lisboa é o Café a Brasileira, que disparou para as esquinas e feiras da cidade uma dezena de quiosques estilizados à sua moda, verdinhos, com roupa vintage e tal.

Na década de 1980 este observador das ruas presenciou uma coqueluche em New York, o “zapping”, que consistia em flanar pela cidade, uma versão gastronomizada do “bar fly”, começar um drink num lugar, midtown Manhatan, por exemplo, dali pular para um prato de entrada na altura da 4th Street, mais um drink e tal e zap, acabar o main course no Soho ou no Little Italy. É verdade que havia muita gente que ficava no meio do caminho e subia alguns andares para infestar de cigarro e desejos night clubs improvisados, que de dia eram salões de beleza, a noite templos de veleidades, mas isso é outra história. Embora possa nascer a qualquer hora, quem sabe, um modus caminhando de bar de rua em bar de rua...

Falando em criatividade, em Alcântara, um dos mágicos berços da poesia de Pessoa, com ruas chamadas de Lusíadas e Camões, há gente criando de verdade, o caso da descoberta que fizemos caminhando; achamos um Comprimido ponto pt, ninho de criadores de vídeo, produtores da Alcântara TV, consultores de marketing; e, como na música de Vinicius, "um velho calção de banho..." encontramos um jornal impresso, o Jornal do Comércio de Alcântara, isso é que é bravura, com artigos, colunistas, anúncios, serviços, ali na lavanderia, no retalho de carnes, na lojinha, pra pegar quem quiser ficar informado de tudo o que rola e até participar nessa ideia boa: "na minha Rua", um portal da Câmara de Lisboa que permite ao contribuinte literalmente meter a sua colher. 

Experimente pois meu caro passageiro deste elétrico 28 imaginário, caminhar feito um médico, pagão, um Ricardo Reis que “cada um cumpra o destino que lhe cumpra, e deseje o destino que deseje, nem cumpra o que deseje nem deseje o que cumpre”.

Caminhemos pois, Nas Esquinas de Lisboa. Até a próxima.

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